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“O ódio como política” e o discurso intolerante

Vivemos um momento político ímpar de frustrações. Nossas classes média, média alta e alta tentando assediar os rincões do Brasil com um discurso intolerante, raivoso, aniquilante e antidemocrático contra um “inimigo comum”: os desprotegidos e os diferentes. Perdeu-se até o senso do ridículo!

Um Brasil, de um lado, com os tristes, apavorados e humilhados. Do outro, os “frustrados”, aqueles que perderam no voto, que não satisfizeram seus desejos, gerando tensão interna decorrente de situações politicamente fracassadas.

Pontuando, as seguidas derrotas eleitorais nacionais dessas classes fizeram eclodir, de certo tempo para cá, um Brasil do ódio, da raiva e do aviltamento. Um Brasil de frustrados por fracassos político-eleitorais. Frustrações com requintes de “ira pública”, ignorando o respeitável, o aceitável e o ponderável.

Reflita! "Quem anda de carro e usa gasolina não é pobre" – a frase é do secretário do Tesouro do governo Temer, Mansueto Almeida, para justificar a razão de não reduzir a tributação que incide sobre a gasolina, cujo preço é astronômico. Mas, esqueceu ele de que pobre também anda de moto. Veja a “ira pública” aflorando sem beira e sem freios.

A socióloga Esther Solano, professora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Unifesp, falando sobre o lançamento do livro de autoria dela intitulado “O ódio como política”, fruto de pesquisas com movimentos neofascistas e com os eleitores do candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, tem uma visão político-eleitoral bastante interessante para o nosso momento odiento.

Segundo Esther, os eleitores de Bolsonaro exteriorizam “(..) um voto de frustração(..)”, que “(...) vem fundamentalmente de homens, porque ele tem uma rejeição muito forte entre as mulheres, por causa de seu discurso misógino. Também entre eleitores de classe média e mais escolarizados (...)”. E “(...) entre pessoas que têm ensino superior completo. São pessoas que já passaram pela universidade e que possuem alta escolarização, mas que decidem votar nele. Então, eu diria que o eleitor típico de Bolsonaro é um homem branco, de classe média, com ensino superior completo e das regiões sul e sudeste do País”.

Indagada pela Radio France Internationale se Bolsonaro representa o mesmo extremismo fascista que ocorre na Europa e em outros países, Esther é absolutamente enfática: “Sim! Eu diria que é o mesmo extremismo fascista com uma diferença fundamental: tanto o extremismo na Europa quanto nos Estados Unidos se constrói na ideia do inimigo externo. Então, é o imigrante, é o refugiado, é aquele que vem de fora. Como existe uma islamofobia muito forte, é aquele que ameaça a identidade européia e norte-americana. No caso do Brasil, não temos essa ameaça externa. Então, o inimigo é interno”.

Quem seria, então, esse nosso cruel inimigo interno? Por indução e interpretação das pesquisas da socióloga, todos aqueles que venceram as últimas quatro eleições presidenciais. Seriam os corruptos, os corrompidos, os corruptores, os propineiros,...? Não! Eles estão em todos os partidos, vivos, vividos e locupletados. Os vencedores tornados inimigos pelo extemismo de Bolsonaro.

“Esse eleitor rejeita a tirania do politicamente correto. Temos aí uma trivialização do discurso de ódio do Bolsonaro. Não podemos também esquecer que estamos num país que tem uma sociedade muito racista e muito machista. O Brasil é o país que mais mata pessoas transgênero no mundo, tem uma alta taxa de feminicídio, o homicídio contra a mulher. Então, infelizmente, é um país que está construído sobre uma base de discurso e de prática de ódio contra o diferente” – diz a socióloga.

Segundo ainda Esther Solano, o candidato Bolsonaro clareou para o Brasil um discurso de ódio que era malvisto, sujo. Que estava escondido, camuflado. E que, agora, ficou despudorado, desavergonhado. Seus eleitores, enfim, “saíram do armário”!  E circulam livremente com um carimbo na testa: “agora é correto falar isso”. Mostrando-se que pretendem “fuzilar” com seu capitão “comandante”.

No desiderato, adverte para o fato de que o regime nazista na Alemanha nasceu assim. De um enorme descontentamento político e social, agravado pela crise econômica. Nas suas conclusões, no Brasil, os pobres ganharam a possibilidade de ter uma renda maior, trabalho melhor, de consumir e construir mais, provocando medo e rejeição fundamentalmente das classes média, média alta e alta brasileiras. Seria, classicamente, “o ódio ao pobre”. A “vindita” pelo bem-estar do outrem. Classes que viram aquele pobre, aquele favelado e aquele periférico se aproximar delas e crescer na hierarquia social. Isso, segundo Esther, provocou um conjunto de reações classistas, xenofóbicas e, além do mais, com conteúdo racial, uma rejeição muito grande às políticas de inclusão. Por tudo o eleitor do Bolsonaro não tem causado entusiasmo; mas, asno.

“Parece que o outro não é um adversário político. É o inimigo que tem de aniquilar. Essa configuração provoca muita raiva no cenário político. Movimentos com tal grau de emotividade são sempre muito típicos de momentos de crise político-econômica. Quando se tem uma crise do neoliberalismo como a atual, que é na verdade global, com desemprego muito alto, uma grande vulnerabilidade e precarização, existe uma tendência de aparecimento de movimentos populistas que conseguem captar essa emoção das pessoas” – diz.

Finalmente, uma pergunta: “Bolsonaro representa a política dos indignados?” Não! Representa a política dos frustrados, dos fracassados, dos derrotados,...  Nada digno para justificar algum movimento de rua. Absolutamente, nada! Tudo frustração de perdedores. Dos que querem “tocar fogo no circo”. “Gritos” de ontem que, hoje, transfiguraram-se em discurso de raiva para “matar” moral e socialmente quem se atreva a cruzar caminhos da frustração. Uma parcela da sociedade que não teve a coragem e a altivez necessárias para expor suas frustrações com o reconhecimento público por derrotas. E que no ontem escolheu a rua para nela destilar rancor. E, hoje, expõe-se sem cercas e amarras para eliminar qualquer inimigo que possa causar-lhe novas frustrações político-eleitorais. É o tudo ou nada!

 

Direitos Humanos, Direito à Vida e Pena de Morte Lançada a “Operação Ciro Gomes”

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