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Do MPB ao forró: a música do terreiro da nossa casa em tempos de pandemia

O isolamento trouxe uma série de mudanças bruscas na vida da maioria das pessoas que vivem de forma autônoma para sobreviver. No mundo artístico, cantores renomados a nível nacional se renderam às lives para atrair os fãs, utilizando produções de sets inovadores, outros até mais simples e despojados. Dessa forma, conseguindo driblar a lógica da solidão que a pandemia causa para as pessoas que estão podendo ficar em casa no momento de isolamento social.

Apesar desses novos formatos de show e a possibilidade de entretenimento para as pessoas em suas salas de estar, não são todos os músicos que conseguem essa visibilidade e formas de lucrar com essas atividades. Pensando nisso, o Blog Falado Abertamente foi atrás de mulheres piauienses que vivem da música para falar um pouco sobre a condição da sua profissão durante esse momento no Piauí. 

Um floral na terra quente em meio à pandemia

Com renda única proveniente da música, a estudante de História da Universidade Federal do Piauí, Yngla Silva, detalhou sobre sua trajetória musical. Ganhou o primeiro violão aos sete anos de idade e fez aula de canto por dois anos. No entanto, começou a tocar profissionalmente em 2018, quando foi convidada para integrar a banda Florais da Terra Quente. Com essa oportunidade, viu na música uma forma de trabalhar com o que ama.

Banda musical piauiense Floral da Terra Quente (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Com repertório focado no MPB (Música Popular Brasileira) e indie, a jovem cantora está aproveitando a quarentena para produzir músicas e retornar com conteúdo para quando as atividades urbanas retornarem. 

"Eu estou distante das pessoas que compartilho minha música, mas estou compondo músicas durante a quarentena. É importante produzir, mas é melhor quando se compartilha. A gente tenta ver um lado bom nisso tudo”. 

Esse ano, a banda estava se preparava para lançar o primeiro álbum e iniciar uma sequência de shows por Teresina. Infelizmente, tiveram que pausar suas atividades devido à pandemia do novo coronavírus. Com isso, as ações da banda e da artista tiverem que ser suspensas, causando quebra na rotina e carreira musical de Yngla.

Passando por dificuldades técnicas para produções virtuais, tanto individuais quanto em banda, a estudante espera que as condições de saúde pública melhores para que coloque em prática seus planos e carreira. E também, espera que a sociedade piauiense reconheça o valor dos artistas regionais em tempos de crise. 

Yngla Silva (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

"Ser músico autônomo já é um desafio. Precisamos de um espaço para ser ouvido, e principalmente, ser ouvida. Sabemos o quanto é complicado ser mulher, e ser mulher na música. No isolamento, tudo piora, porque não temos como investir, nos instrumentos, por exemplo. Posso resumir em apenas: É difícil, e de certa forma, triste. No Piauí, estou percebendo até mais espaço para alguns artistas, mas ainda é dificultoso. Espero um dia que possamos alcançar um patamar maior”. 

Shows onlines como alternativas

Com a inspiração do forró regional, Pâmela Lima sentiu paixão pela música desde muito jovem em sua vida. Com bastante persistência na carreira e mostrando sua voz no Piauí, a cantora realizou aparições em diversos programas locais e nacionais, como o programa do Ratinho e no programa "A Hora do Faro", na Record. No entanto, com a pandemia do Covid-19, teve que alterar a lógica de sua rotina de shows com base nas medidas de isolamento social. 

No entanto, Pâmela encontrou nas redes sociais, dentro da dinâmica de lives, individuais e com outros parceiros da música, uma forma de continuar seu trabalho e gerar entretenimento para as pessoas que acompanham seu trabalho. 

"Esse período de isolamento, que estamos vivendo hoje, infelizmente, afeta o mundo da música. Nós trabalhamos com pessoas, com aglomerações. Então, nesse momento, juntamento com outros artistas, a gente fica atualizando lives, de casa mesmo, vídeos e entrando em contato com meu público. Nesse momento, é essencial que a gente fique em casa, pra que tudo isso passe logo. Vamos nos unir para retornarmos. Estou com muita saudade do público”, disse. 

Pâmela Lima (Foto: Reprodução/Instagram @pamela limacantora)

Os shows feitos por celular são ótimas propostas: incentivam as pessoas a permanecerem em casa e ainda engajam o trabalho dos músicos. Entretanto, Pâmela pontua que não há um retorno financeiro para esses profissionais que prestam essas ações de formas virtuais, trazendo consequências financeiras para diversos músicos. 

A música em tempos de pandemia; pensando além da crise

Esses foram os relatos de duas mulheres que vivem e dependem da música diariamente. A pandemia irá passar. Não sabemos quanto, mas irá. Mas antes de pensar no futuro, devemos calçar nossos pés no presente. Enquanto estamos em casa, há profissionais que estão se empenhando em produzir conteúdo interativo para quem estar podendo ficar isolado. Em tempos como esse, a música e os profissionais que fazem essa arte acontecer, nunca foram tão essenciais.

Durante entrevista com Yngla e Pâmela, mulheres com estilos de música e histórias diferentes, suas opiniões convergem quanto à valorização do artista. Pâmela pontuou que os cachês ainda são baixos, destacou que começou a trabalhar com música desde os 12 anos, mas só começou receber remuneração aos 15 anos. Yngla falou sobre a falta de reconhecimento da população pela música que é produzida no estado piauiense. 

Nunca foi apenas segurar microfones, instrumentos musicais, a beleza e o glamour dos palcos. Há trabalho árduo, sonhos, horas de ensaios, dores de garganta e bastidores em estradas e incertezas que as câmeras não registram. O isolamento, cruelmente, traz uma série de reflexões e impossibilidades para muitos trabalhadores do mundo artístico. E ironicamente, o entretenimento para encurtar os dias que parecem não correr no calendário durante a quarentena, vem justamente desses profissionais.

Após a quarentena, haverá um novo mundo para ser habitado por nós. Os shows irão voltar lentamente, talvez adotando um novo formato, mesmo presencial. As lives vieram pra ficar? Quais artistas poderão levantar uma estrutura virtual por semana para não desistirem dos seus sonhos? Ainda vamos nos emocionar, sorrir e chorar com músicas nas tv's de nossa sala durante um tempinho. Mas quem vai poder levar essa emoção até você? 

Gustavo Lima, Marília Mendonça, Henrique e Juliano, Nando Reis, Caetano Veloso, Sandy e Júnior, não perderão sua fama, nem seu talento e história. As grandes marcas ainda continuarão patrocinando seus nomes. No entanto, será ainda mais difícil para os artistas locais com visibilidade à nível regional.

Quando voltarmos a ocupar a nossa nova selva de pedra, que nossa sociedade pense que o tempo de isolamento poderia ter sido mais longa e solitária sem esses profissionais da música. Mas que não existem só os nomes patrocinados que conseguem levar uma live por semana no Youtube. 

Quando tudo isso acabar, que possamos enxergar com mais empatia para os profissionais da música local. Dar audiência alguns minutos do seu dia pras lives curtas de instagram da sua cidade, pode ser algo mínimo na sua rotina, mas é essencial para esses artistas durante a quarentena. E muitas vezes, pode ser até decisivo para sua carreira.

A arte por meio da música nunca se fez tão importante quanto agora. Custa pouco fazer algo simbólico e consumir a produção local e independente, até porque, muitos estão fazendo de forma gratuita. O reconhecimento e valorização pode ser o primeiro passo, principalmente se ela é feita no nosso terreiro. 

O isolamento trouxe uma série de mudanças bruscas na vida da maioria das pessoas que vivem de forma autônoma para sobreviver. No mundo artístico, cantores renomados a nível nacional se renderam às lives para atrair os fãs, utilizando produções de sets inovadores, outros até mais simples e despojados. Dessa forma, conseguindo driblar a lógica da solidão que a pandemia causa para as pessoas que estão podendo ficar em casa no momento de isolamento social.

Apesar desses novos formatos de show e a possibilidade de entretenimento para as pessoas em suas salas de estar, não são todos os músicos que conseguem essa visibilidade e formas de lucrar com essas atividades. Pensando nisso, o Blog Falado Abertamente foi atrás de mulheres piauienses que vivem da música para falar um pouco sobre a condição da sua profissão durante esse momento no Piauí. 

Um floral na terra quente em meio à pandemia

Com renda única proveniente da música, a estudante de História da Universidade Federal do Piauí, Yngla Silva, detalhou sobre sua trajetória musical. Ganhou o primeiro violão aos sete anos de idade e fez aula de canto por dois anos. No entanto, começou a tocar profissionalmente em 2018, quando foi convidada para integrar a banda Florais da Terra Quente. Com essa oportunidade, viu na música uma forma de trabalhar com o que ama.

Banda musical piauiense Floral da Terra Quente (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Com repertório focado no MPB (Música Popular Brasileira) e indie, a jovem cantora está aproveitando a quarentena para produzir músicas e retornar com conteúdo para quando as atividades urbanas retornarem. 

"Eu estou distante das pessoas que compartilho minha música, mas estou compondo músicas durante a quarentena. É importante produzir, mas é melhor quando se compartilha. A gente tenta ver um lado bom nisso tudo”. 

Esse ano, a banda estava se preparava para lançar o primeiro álbum e iniciar uma sequência de shows por Teresina. Infelizmente, tiveram que pausar suas atividades devido à pandemia do novo coronavírus. Com isso, as ações da banda e da artista tiverem que ser suspensas, causando quebra na rotina e carreira musical de Yngla.

Passando por dificuldades técnicas para produções virtuais, tanto individuais quanto em banda, a estudante espera que as condições de saúde pública melhores para que coloque em prática seus planos e carreira. E também, espera que a sociedade piauiense reconheça o valor dos artistas regionais em tempos de crise. 

Yngla Silva (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

"Ser músico autônomo já é um desafio. Precisamos de um espaço para ser ouvido, e principalmente, ser ouvida. Sabemos o quanto é complicado ser mulher, e ser mulher na música. No isolamento, tudo piora, porque não temos como investir, nos instrumentos, por exemplo. Posso resumir em apenas: É difícil, e de certa forma, triste. No Piauí, estou percebendo até mais espaço para alguns artistas, mas ainda é dificultoso. Espero um dia que possamos alcançar um patamar maior”. 

Shows onlines como alternativas

Com a inspiração do forró regional, Pâmela Lima sentiu paixão pela música desde muito jovem em sua vida. Com bastante persistência na carreira e mostrando sua voz no Piauí, a cantora realizou aparições em diversos programas locais e nacionais, como o programa do Ratinho e no programa "A Hora do Faro", na Record. No entanto, com a pandemia do Covid-19, teve que alterar a lógica de sua rotina de shows com base nas medidas de isolamento social. 

No entanto, Pâmela encontrou nas redes sociais, dentro da dinâmica de lives, individuais e com outros parceiros da música, uma forma de continuar seu trabalho e gerar entretenimento para as pessoas que acompanham seu trabalho. 

"Esse período de isolamento, que estamos vivendo hoje, infelizmente, afeta o mundo da música. Nós trabalhamos com pessoas, com aglomerações. Então, nesse momento, juntamento com outros artistas, a gente fica atualizando lives, de casa mesmo, vídeos e entrando em contato com meu público. Nesse momento, é essencial que a gente fique em casa, pra que tudo isso passe logo. Vamos nos unir para retornarmos. Estou com muita saudade do público”, disse. 

Pâmela Lima (Foto: Reprodução/Instagram @pamela limacantora)

Os shows feitos por celular são ótimas propostas: incentivam as pessoas a permanecerem em casa e ainda engajam o trabalho dos músicos. Entretanto, Pâmela pontua que não há um retorno financeiro para esses profissionais que prestam essas ações de formas virtuais, trazendo consequências financeiras para diversos músicos. 

A música em tempos de pandemia; pensando além da crise

Esses foram os relatos de duas mulheres que vivem e dependem da música diariamente. A pandemia irá passar. Não sabemos quanto, mas irá. Mas antes de pensar no futuro, devemos calçar nossos pés no presente. Enquanto estamos em casa, há profissionais que estão se empenhando em produzir conteúdo interativo para quem estar podendo ficar isolado. Em tempos como esse, a música e os profissionais que fazem essa arte acontecer, nunca foram tão essenciais.

Durante entrevista com Yngla e Pâmela, mulheres com estilos de música e histórias diferentes, suas opiniões convergem quanto à valorização do artista. Pâmela pontuou que os cachês ainda são baixos, destacou que começou a trabalhar com música desde os 12 anos, mas só começou receber remuneração aos 15 anos. Yngla falou sobre a falta de reconhecimento da população pela música que é produzida no estado piauiense. 

Nunca foi apenas segurar microfones, instrumentos musicais, a beleza e o glamour dos palcos. Há trabalho árduo, sonhos, horas de ensaios, dores de garganta e bastidores em estradas e incertezas que as câmeras não registram. O isolamento, cruelmente, traz uma série de reflexões e impossibilidades para muitos trabalhadores do mundo artístico. E ironicamente, o entretenimento para encurtar os dias que parecem não correr no calendário durante a quarentena, vem justamente desses profissionais.

Após a quarentena, haverá um novo mundo para ser habitado por nós. Os shows irão voltar lentamente, talvez adotando um novo formato, mesmo presencial. As lives vieram pra ficar? Quais artistas poderão levantar uma estrutura virtual por semana para não desistirem dos seus sonhos? Ainda vamos nos emocionar, sorrir e chorar com músicas nas tv's de nossa sala durante um tempinho. Mas quem vai poder levar essa emoção até você? 

Gustavo Lima, Marília Mendonça, Henrique e Juliano, Nando Reis, Caetano Veloso, Sandy e Júnior, não perderão sua fama, nem seu talento e história. As grandes marcas ainda continuarão patrocinando seus nomes. No entanto, será ainda mais difícil para os artistas locais com visibilidade à nível regional.

Quando voltarmos a ocupar a nossa nova selva de pedra, que nossa sociedade pense que o tempo de isolamento poderia ter sido mais longa e solitária sem esses profissionais da música. Mas que não existem só os nomes patrocinados que conseguem levar uma live por semana no Youtube. 

Quando tudo isso acabar, que possamos enxergar com mais empatia para os profissionais da música local. Dar audiência alguns minutos do seu dia pras lives curtas de instagram da sua cidade, pode ser algo mínimo na sua rotina, mas é essencial para esses artistas durante a quarentena. E muitas vezes, pode ser até decisivo para sua carreira.

A arte por meio da música nunca se fez tão importante quanto agora. Custa pouco fazer algo simbólico e consumir a produção local e independente, até porque, muitos estão fazendo de forma gratuita. O reconhecimento e valorização pode ser o primeiro passo, principalmente se ela é feita no nosso terreiro. 

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