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A lenda da maçã, do esgoto e do trem-bala

Em 30 de maio de 2011, o economista Eduardo Gianneti da Fonseca,  professor da USP, com doutorado em Cambridge, deu uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura. 

A lenda da maçã, do esgoto e do trem-bala (Foto: reprodução internet)

Seis anos atrás, reportando a isso na coluna Frente Ampla, que eu pulicava no  Jornal Meio Norte, selecionei um trecho da fala do economista, na qual ele diz que a desigualdade social no Brasil resulta de más escolhas, como a de não se fazer o saneamento básico, ao tempo em que se projeta um trem-bala. 

Segue abaixo a muito atualíssima fala do economista, a despeito de suas declarações terem sido dadas quase 10 anos atrás:

“Eu não acho a desigualdade um mal em si e o Brasil, depende que como se chegou a ela e o Brasil é um país muito injustamente desigual (...) Adoro a seguinte historinha: dois meninos estão caminhando na calçada e um deles encontra duas maçãs, uma grande, uma pequena. Esse que apanha as maçãs fica com a grande e dá a pequena para o colega”.

“O colega começa a reclamar: ‘Mas como você é injusto, como você é ganancioso, como você é egoísta. Você ficou com a maçã grande e me deu a pequena’. O outro ouve, ouve, ouve até que uma hora ele para  e fala para o amigo: ‘Mas espera aí, se você tivesse encontrado as duas maçãs, o que você teria feito?’  O cara responde: ‘É lógico que eu teria ficado com a pequena e dado a grande para você’. E o outro responde: ‘Mas foi exatamente o que eu fiz, por que você está reclamando?’”

“No entanto, ele tem razão de reclamar, porque uma coisa é você chegar a essa distribuição (de renda) por uma imposição, e a outra coisa é você chegar a essa distribuição voluntariamente, porque houve uma opção”.

“O menino tem razão de reclamar. O problema não é um ter ficado com uma maçã grande e outro com a maçã pequena. (O problema) é o caminho que levou a essa distribuição. E aí o problema do Brasil é enorme, porque somos um país em que as condições em que as pessoas começam a sua vida e veem ao mundo são absurdamente desiguais. A condição social em que a criança vem ao mundo é quase que determinante no tipo de vida que ela vai ter para o resto da vida e isso nós temos que corrigir...”

“Tem uma descoberta recente sobre saneamento básico que é uma coisa impressionante. Isso deveria estar no centro de um projeto de futuro do Brasil: uma criança de zero a dois anos consome 87% da energia metabólica para a constituição do cérebro. Se essa criança pega uma criança forte, crônica, um parasita ou tenha uma diarreia muito forte nesse período crítico da formação do cérebro, isso compromete a formação neural para o resto da vida... Essa doença crônica bem no início da trajetória (de vida da criação) ela é comprometedora. É gente que vai começar o ensino fundamental e vai repetir o primeiro ano muitas vezes, por que não consegue aprender”.

“Um país em que metade dos domicílios não tem saneamento básico está condenando uma proporção gigantesca de crianças a doenças crônicas e parasitárias, as diarréias que vão comprometer a sua capacidade cognitiva para o resto da vida. E nós não estamos sabendo resolver isso no século 21. Nós chegamos ao século 21 sem ter conseguido resolver um problema da agenda social do século 19, que é coleta de esgoto. Somos um país que vai fazer estádios, que vai fazer trem-bala e quer continuar vivendo miseravelmente”.

Em 30 de maio de 2011, o economista Eduardo Gianneti da Fonseca,  professor da USP, com doutorado em Cambridge, deu uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura. 

A lenda da maçã, do esgoto e do trem-bala (Foto: reprodução internet)

Seis anos atrás, reportando a isso na coluna Frente Ampla, que eu pulicava no  Jornal Meio Norte, selecionei um trecho da fala do economista, na qual ele diz que a desigualdade social no Brasil resulta de más escolhas, como a de não se fazer o saneamento básico, ao tempo em que se projeta um trem-bala. 

Segue abaixo a muito atualíssima fala do economista, a despeito de suas declarações terem sido dadas quase 10 anos atrás:

“Eu não acho a desigualdade um mal em si e o Brasil, depende que como se chegou a ela e o Brasil é um país muito injustamente desigual (...) Adoro a seguinte historinha: dois meninos estão caminhando na calçada e um deles encontra duas maçãs, uma grande, uma pequena. Esse que apanha as maçãs fica com a grande e dá a pequena para o colega”.

“O colega começa a reclamar: ‘Mas como você é injusto, como você é ganancioso, como você é egoísta. Você ficou com a maçã grande e me deu a pequena’. O outro ouve, ouve, ouve até que uma hora ele para  e fala para o amigo: ‘Mas espera aí, se você tivesse encontrado as duas maçãs, o que você teria feito?’  O cara responde: ‘É lógico que eu teria ficado com a pequena e dado a grande para você’. E o outro responde: ‘Mas foi exatamente o que eu fiz, por que você está reclamando?’”

“No entanto, ele tem razão de reclamar, porque uma coisa é você chegar a essa distribuição (de renda) por uma imposição, e a outra coisa é você chegar a essa distribuição voluntariamente, porque houve uma opção”.

“O menino tem razão de reclamar. O problema não é um ter ficado com uma maçã grande e outro com a maçã pequena. (O problema) é o caminho que levou a essa distribuição. E aí o problema do Brasil é enorme, porque somos um país em que as condições em que as pessoas começam a sua vida e veem ao mundo são absurdamente desiguais. A condição social em que a criança vem ao mundo é quase que determinante no tipo de vida que ela vai ter para o resto da vida e isso nós temos que corrigir...”

“Tem uma descoberta recente sobre saneamento básico que é uma coisa impressionante. Isso deveria estar no centro de um projeto de futuro do Brasil: uma criança de zero a dois anos consome 87% da energia metabólica para a constituição do cérebro. Se essa criança pega uma criança forte, crônica, um parasita ou tenha uma diarreia muito forte nesse período crítico da formação do cérebro, isso compromete a formação neural para o resto da vida... Essa doença crônica bem no início da trajetória (de vida da criação) ela é comprometedora. É gente que vai começar o ensino fundamental e vai repetir o primeiro ano muitas vezes, por que não consegue aprender”.

“Um país em que metade dos domicílios não tem saneamento básico está condenando uma proporção gigantesca de crianças a doenças crônicas e parasitárias, as diarréias que vão comprometer a sua capacidade cognitiva para o resto da vida. E nós não estamos sabendo resolver isso no século 21. Nós chegamos ao século 21 sem ter conseguido resolver um problema da agenda social do século 19, que é coleta de esgoto. Somos um país que vai fazer estádios, que vai fazer trem-bala e quer continuar vivendo miseravelmente”.

Lidar mal com estatística é quebrar a bússola para o sucesso das ações de governos A grande tragédia nunca deverá ser esquecida!