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Arimatéia Azevedo, homem de muita coragem pessoal

Recebi a incumbência de inaugurar uma série de depoimentos pessoais sobre o jornalista Arimatéia Azevedo.

Faço-o com grande alegria.

Há um par de anos, o Arimatéia Azevedo contou-me que uma de suas primeiras atividades foi ser pintor de paredes na obra do conjunto habitacional Parque Piauí, erguido em 1967, primeiro grande residencial de “casas populares” de Teresina. Ele era pouco menos que um menino, então eu, que me tornei seu amigo pelas tramas do tempo, era um curumim de talvez menos de um ano nas lonjuras do Maranhão profundo.

Jornalista Arimatéia Azevedo encontra-se preso na penitenciária Irmão Guido (Foto: Portal AZ)

O tempo, para o qual tem sempre há época para tudo sobre a terra, como ensina o Eclesiastes, tratou de nos aproximar. Uma convivência de não menos que duas décadas e meia, que foi solidificando uma amizade e admiração recíprocas – talvez mais minha por ele do que o contrário, porque o Arimatéia tem mais do que muitos uma qualidade que vai rareando entre nós, a coragem pessoal.

A coragem pessoal foi que levou Arimatéia Azevedo a confrontar os barões do crime organizado no Piauí nos anos 1980 e 1990 – a ponto de um desses criminosos, cujo nome não vale a pena citar, ter invadido em 1996 a redação do Jornal Meio Norte, onde Ari era colunista, para matar o jornalista. Sim, matar e agredir jornalistas já foi uma atividade bastante corriqueira nesta terra. Agora é bem menos. Intimidam-se os que se postam contra determinadas posturas ou figuras através de meios mais sutis, mas não menos violentos, como a intimidação através das ações judiciais, justas ou não.

Voltemos, porém, ao trilho desse depoimento, porque seu fito é o de falar sobre uma pessoa que agora se encontra presa em razão de um inquérito em que a injustiça está mais presente que a verdade. Vamos falar do Arimatéia Azevedo, o pai de quatro meninas, pioneiro no webjornalismo no Piauí, o cara que estaria muito bem acomodado financeiramente se comprasse menos brigas – mas ele as compra por convicção, já que dinheiro não deve ter para abarcar o mundo nessas lutas.

O Arimatéia Azevedo, menino que pintava paredes para ganhar um dinheiro e aliviar o pai de gastos com ele, fez-se um jornalista que atravessou décadas fazendo bem o que escolher fazer como profissão. Foi editor de jornais como o Dia, Meio Norte e Diário do Povo.

No Meio Norte, montou uma equipe invejável e conduziu o veículo para um status de grande jornal, com reportagens que mostravam um Piauí mais orgulhoso de si mesmo. Foi lá que o conheci mais de perto, a partir de 1994, quando ele montou possivelmente a que seria a melhor equipe de jornalistas do estado em uma única redação. Fenelon Rocha, que o substituiu na editoria, completou o trabalho de formar esse excepcional time.

O Ari fez TV e no rádio liderou programas de grande audiência, sempre com uma crítica ácida contra erros de governo e governantes – o que lhe garantia boa audiência, mas também o dedicado desamor dos que confundem jornalismo com uma prática comunicativa elogiosa.

Quando deixou o Meio Norte, Ari Azevedo inventou um meio próprio de fazer seu jornalismo, criando o Portal AZ, o primeiro webjornal do Piauí. Trafegou na internet com um habitual pioneirismo, mas sempre fazendo o que deve ser feito, que é o jornalismo clássico, que não costuma ser o do aplauso fácil. E isso, claro, não é perdoável para muita gente.

Tenho, assim, que nutrir admiração pelo Arimatéia Azevedo em face de sua trajetória. “Ah, mas esse cara tem defeitos, por que você não fala disso?” Não falo dos defeitos daqueles a quem gosto e admiro porque já existem os inimigos para lembrar as não qualidades deles. Sei dos defeitos de meus amigos, mas sem muito mais de suas qualidades – que excedem em muito às não-virtudes. É o caso de Arimatéia Azevedo, que por ser mortal e falível, tem defeitos, mas com qualidade imensamente maiores.

Por Cláudio Barros
Jornalista e professor de História

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Processo não aponta ligação do jornalista Arimatéia Azevedo ao suposto crime de extorsão

Recebi a incumbência de inaugurar uma série de depoimentos pessoais sobre o jornalista Arimatéia Azevedo.

Faço-o com grande alegria.

Há um par de anos, o Arimatéia Azevedo contou-me que uma de suas primeiras atividades foi ser pintor de paredes na obra do conjunto habitacional Parque Piauí, erguido em 1967, primeiro grande residencial de “casas populares” de Teresina. Ele era pouco menos que um menino, então eu, que me tornei seu amigo pelas tramas do tempo, era um curumim de talvez menos de um ano nas lonjuras do Maranhão profundo.

Jornalista Arimatéia Azevedo encontra-se preso na penitenciária Irmão Guido (Foto: Portal AZ)

O tempo, para o qual tem sempre há época para tudo sobre a terra, como ensina o Eclesiastes, tratou de nos aproximar. Uma convivência de não menos que duas décadas e meia, que foi solidificando uma amizade e admiração recíprocas – talvez mais minha por ele do que o contrário, porque o Arimatéia tem mais do que muitos uma qualidade que vai rareando entre nós, a coragem pessoal.

A coragem pessoal foi que levou Arimatéia Azevedo a confrontar os barões do crime organizado no Piauí nos anos 1980 e 1990 – a ponto de um desses criminosos, cujo nome não vale a pena citar, ter invadido em 1996 a redação do Jornal Meio Norte, onde Ari era colunista, para matar o jornalista. Sim, matar e agredir jornalistas já foi uma atividade bastante corriqueira nesta terra. Agora é bem menos. Intimidam-se os que se postam contra determinadas posturas ou figuras através de meios mais sutis, mas não menos violentos, como a intimidação através das ações judiciais, justas ou não.

Voltemos, porém, ao trilho desse depoimento, porque seu fito é o de falar sobre uma pessoa que agora se encontra presa em razão de um inquérito em que a injustiça está mais presente que a verdade. Vamos falar do Arimatéia Azevedo, o pai de quatro meninas, pioneiro no webjornalismo no Piauí, o cara que estaria muito bem acomodado financeiramente se comprasse menos brigas – mas ele as compra por convicção, já que dinheiro não deve ter para abarcar o mundo nessas lutas.

O Arimatéia Azevedo, menino que pintava paredes para ganhar um dinheiro e aliviar o pai de gastos com ele, fez-se um jornalista que atravessou décadas fazendo bem o que escolher fazer como profissão. Foi editor de jornais como o Dia, Meio Norte e Diário do Povo.

No Meio Norte, montou uma equipe invejável e conduziu o veículo para um status de grande jornal, com reportagens que mostravam um Piauí mais orgulhoso de si mesmo. Foi lá que o conheci mais de perto, a partir de 1994, quando ele montou possivelmente a que seria a melhor equipe de jornalistas do estado em uma única redação. Fenelon Rocha, que o substituiu na editoria, completou o trabalho de formar esse excepcional time.

O Ari fez TV e no rádio liderou programas de grande audiência, sempre com uma crítica ácida contra erros de governo e governantes – o que lhe garantia boa audiência, mas também o dedicado desamor dos que confundem jornalismo com uma prática comunicativa elogiosa.

Quando deixou o Meio Norte, Ari Azevedo inventou um meio próprio de fazer seu jornalismo, criando o Portal AZ, o primeiro webjornal do Piauí. Trafegou na internet com um habitual pioneirismo, mas sempre fazendo o que deve ser feito, que é o jornalismo clássico, que não costuma ser o do aplauso fácil. E isso, claro, não é perdoável para muita gente.

Tenho, assim, que nutrir admiração pelo Arimatéia Azevedo em face de sua trajetória. “Ah, mas esse cara tem defeitos, por que você não fala disso?” Não falo dos defeitos daqueles a quem gosto e admiro porque já existem os inimigos para lembrar as não qualidades deles. Sei dos defeitos de meus amigos, mas sem muito mais de suas qualidades – que excedem em muito às não-virtudes. É o caso de Arimatéia Azevedo, que por ser mortal e falível, tem defeitos, mas com qualidade imensamente maiores.

Por Cláudio Barros
Jornalista e professor de História

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