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A sujeira eterna dos que lavam as mãos

“Não fechei os olhos

Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah Eu!
Usei todos os sentidos
Só não lavei as mãos
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo!”
Ivan Lins, na canção “Daquilo que eu sei”

Comecei o texto com versos de Ivan Lins porque o ato de lavar as mãos, que tanto salvou e salva vidas, pode, se tomado por omissão, condenar uma pessoa à morte ou, quando menos, fazê-la vítima de injustiça. Lavar as mãos contraria outra assertiva, a de que podemos pecar por excesso, nunca por omissão.

Todos os que têm formação judaico-cristã e, mesmo os céticos, conhecem a história de um ato de lavar as mãos que, em verdade, foi uma sentença de morte – resultado direto da omissão, não do desejo de praticar a justiça. 

Lembremos essa narrativa sobre lavar as mãos como ato de omissão, presente em Mateus 27:24-25: 

Percebendo Pilatos que não conseguia demover o povo, mas, ao contrário, um princípio de tumulto já era visível, ordenou que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante da multidão e exclamou: “Estou inocente do sangue deste homem justo. Esta é uma questão vossa!”  

E todo o povo respondeu: “Caia sobre nossas cabeças o seu sangue, e sobre nossos filhos!”. 

Pilatos, mesmo ciente da inocência do condenado, mandou-o para o calvário, assentindo sua crucificação. Fê-lo ciente, portanto, a sua omissão foi mortal, levou um inocente à morte. Poderia ter agido como o condenado, que tempos antes, diante de uma mulher que seria apedrejada, disse o seguinte: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8,7). 

É claro que na narrativa bíblica, o Cristo deveria ser levado à holocausto, como um cordeiro de Deus – algo que tem narrativa anterior, no Gênesis (22:1-18), quando Deus pede Isaque, o filho de Abraão, em sacrifício, mas ante à fé do patriarca dispensa-o do sacrifício. Isso poderia aliviar a barra de Pilatos, mas a humanidade do Cristo e de Pilatos guia-nos para o grave pecado da omissão.

É o que vemos agora: o jornalista Arimateia Azevedo está sendo vítima de uma recorrente omissão. Bacias e mais bacias se colocam à frente das mãos dos muitos que podem atestar ações que o livrem de um decreto de prisão desarrazoado. Todos lavam suas mãos macias e pensam fazê-las limpas do odor fétido que a omissão causa ao condenar uma pessoa ao sacrifício de uma prisão baseada em uma ação que não se sustenta.

Gostaria muito de ser crente em coisas como o Juízo Final, aquele julgamento universal que a tradição judaico-cristã e islâmica prega. Nele serão salvos os justos – os que se postam ao lado de quem pregou não atirar a primeira pedra sobre a mulher pecadora; e serão condenados ao fogo eterno os que lavam as mãos para não as fazer limpas, mas sim sujas pela injustiça. 

Se cresse, penso que esse fogo será tanto maior para os que, de modo deliberado e reiterado, lavam suas mãos diante da injustiça.

A água suja das bacias dos que se omitem, no Juízo Final, poderá ser o combustível para manter acesa as caldeiras onde podem ferver na eternidade os que, lavando as mãos, as fazem cada vez mais sujas.

Claudio Barros
Jornalista 

“Não fechei os olhos

Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah Eu!
Usei todos os sentidos
Só não lavei as mãos
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo!”
Ivan Lins, na canção “Daquilo que eu sei”

Comecei o texto com versos de Ivan Lins porque o ato de lavar as mãos, que tanto salvou e salva vidas, pode, se tomado por omissão, condenar uma pessoa à morte ou, quando menos, fazê-la vítima de injustiça. Lavar as mãos contraria outra assertiva, a de que podemos pecar por excesso, nunca por omissão.

Todos os que têm formação judaico-cristã e, mesmo os céticos, conhecem a história de um ato de lavar as mãos que, em verdade, foi uma sentença de morte – resultado direto da omissão, não do desejo de praticar a justiça. 

Lembremos essa narrativa sobre lavar as mãos como ato de omissão, presente em Mateus 27:24-25: 

Percebendo Pilatos que não conseguia demover o povo, mas, ao contrário, um princípio de tumulto já era visível, ordenou que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante da multidão e exclamou: “Estou inocente do sangue deste homem justo. Esta é uma questão vossa!”  

E todo o povo respondeu: “Caia sobre nossas cabeças o seu sangue, e sobre nossos filhos!”. 

Pilatos, mesmo ciente da inocência do condenado, mandou-o para o calvário, assentindo sua crucificação. Fê-lo ciente, portanto, a sua omissão foi mortal, levou um inocente à morte. Poderia ter agido como o condenado, que tempos antes, diante de uma mulher que seria apedrejada, disse o seguinte: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8,7). 

É claro que na narrativa bíblica, o Cristo deveria ser levado à holocausto, como um cordeiro de Deus – algo que tem narrativa anterior, no Gênesis (22:1-18), quando Deus pede Isaque, o filho de Abraão, em sacrifício, mas ante à fé do patriarca dispensa-o do sacrifício. Isso poderia aliviar a barra de Pilatos, mas a humanidade do Cristo e de Pilatos guia-nos para o grave pecado da omissão.

É o que vemos agora: o jornalista Arimateia Azevedo está sendo vítima de uma recorrente omissão. Bacias e mais bacias se colocam à frente das mãos dos muitos que podem atestar ações que o livrem de um decreto de prisão desarrazoado. Todos lavam suas mãos macias e pensam fazê-las limpas do odor fétido que a omissão causa ao condenar uma pessoa ao sacrifício de uma prisão baseada em uma ação que não se sustenta.

Gostaria muito de ser crente em coisas como o Juízo Final, aquele julgamento universal que a tradição judaico-cristã e islâmica prega. Nele serão salvos os justos – os que se postam ao lado de quem pregou não atirar a primeira pedra sobre a mulher pecadora; e serão condenados ao fogo eterno os que lavam as mãos para não as fazer limpas, mas sim sujas pela injustiça. 

Se cresse, penso que esse fogo será tanto maior para os que, de modo deliberado e reiterado, lavam suas mãos diante da injustiça.

A água suja das bacias dos que se omitem, no Juízo Final, poderá ser o combustível para manter acesa as caldeiras onde podem ferver na eternidade os que, lavando as mãos, as fazem cada vez mais sujas.

Claudio Barros
Jornalista 

Arimatéia Azevedo, um amigo querido e especial! Nova prisão do jornalista Arimatéia Azevedo cheira a Lawfare