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A história da imprensa piauiense perpassa pela atuação de Arimatéia Azevedo

Primeira vez que eu adentrei ao Portal AZ fiquei a observar as páginas de jornais emolduradas em quadros e penduradas nas paredes da sala da recepção, eram recortes de matérias sobre o período das denúncias feitas por Arimatéia Azevedo contra o crime organizado. Em um dos títulos estava escrito: “A Polícia virou caso de polícia”, texto assinado pelo jornalista, referindo-se ao esquema criminoso envolvendo a polícia militar do Piauí na década de 1990.

Estávamos no ano de 2005, os portais de notícias ainda eram poucos no Piauí, não existiam os smartphones e o acesso à internet era limitado ao computador e com transmissão lenta. O Portal AZ estava consolidado pelo seu pioneirismo e, principalmente, pela credibilidade do nome de seu idealizador, Arimatéia Azevedo. 

Ele sempre contava com entusiasmo os motivos que o levaram a fundar um portal de notícias, já que até o início dos anos 2000, os jornais e revistas impressas ainda eram os veículos mais relevantes. Ele costumava relatar que sofria muita censura no antigo jornal em que trabalhava e que criou um espaço na internet para que pudesse divulgar sua coluna na íntegra.

Para a minha geração, Arimatéia estava sempre associado a um jornalista combativo, que fazia jornalismo investigativo e a pessoa por trás do pioneirismo do webjornalismo no Estado.

A oportunidade de trabalhar com este grupo de jornalistas que construiu no dia a dia o início do jornalismo na internet surgiu quando eu era recém-formada pela Ufpi e vi um anúncio no Portal AZ com oferta para seleção de vagas para repórteres, eu estava ávida por trabalhar numa redação e experimentar o frenesi de cobrir a história do presente. Após análise de currículo, fui entrevistada pelo próprio Arimatéia Azevedo, me lembro bem que uma das perguntas que ele me fez foi se eu tinha relações familiares, de amizade ou profissionais com políticos, pois isto poderia atrapalhar a minha atuação como repórter e ele prezava pela independência e investigação livre de sua redação de jornalistas. Resposta negativa, consegui a vaga, atuei como repórter e anos depois como editora-chefe da redação.

Empresário não! Jornalista!

Naquele período Arimatéia não era exclusivamente um colunista de política, ele era proprietário de uma empresa de comunicação, mas não se interessava muito por questões administrativas e renegava sempre títulos como os de diretor, presidente ou empresário. Dizia sempre: “eu sou um jornalista!”. 

Na rotina do Portal AZ, Arimatéia trabalhava todos os dias, inclusive aos domingos, quando ele ia pela manhã escrever sua coluna de segunda-feira. Apesar de ter sua sala individual, onde recebia muitas fontes diariamente, ele sempre ia à redação (ambiente físico onde trabalham os repórteres) conversar conosco, gostava de saber das pautas, lia os títulos no computador, reclamava se houvessem erros ortográficos, tinha sempre uma energia que beirava a euforia. Se empolgava com furos jornalísticos e com denúncias, mas exigia sempre que anexássemos documentos comprobatórios da investigação e que ouvíssemos a parte acusada, como manda o código de ética dos jornalistas brasileiros. 

Eu lembro claramente de episódios que foram lições para mim, enquanto aprendiz do ofício de repórter. Certa vez chegou à Redação um advogado de prefeito de um município do interior do Piauí solicitando direito de resposta sobre uma matéria que havia sido divulgada no Portal AZ. Recebi o senhor e concordamos que a versão do prefeito para os fatos noticiados deveria sim ser publicado e eu lhe disse que eu entrevistaria o prefeito e faríamos uma nova matéria com os argumentos dele, pois ele não havia atendido as nossas ligações no dia anterior. O advogado sentou-se ao meu lado e disse que já havia trazido os “argumentos” do prefeito por escrito e começou a me falar, quase como ditando as frases. Por inexperiência ou intimidação escrevi quase tudo que o advogado queria, enquanto eu redigia, Arimatéia Azevedo adentrou umas três vezes à Redação, observava a cena e saia sem falar nada.

O advogado foi embora, eu publiquei a nova matéria e então Arimatéia veio conversar comigo, me explicando calmamente para que nunca mais me deixasse intimidar nem redigisse nada que advogado pedisse, a menos que fosse um direito de resposta como nota oficial. Uma lição de ética e autonomia jornalística que ficou comigo, como muitas outras nos dada pelo Ari, como o chamamos.

Um sujeito da história da imprensa piauiense 

Depois que deixei o Portal AZ para trabalhar no jornal Diário do Povo e depois seguir carreira acadêmica como professora e pesquisadora da área da Comunicação passei a me interessar também pela história da imprensa brasileira e piauiense e realizamos algumas entrevistas com o jornalista Arimatéia Azevedo e ele contava com orgulho sempre os caminhos que percorreu ao longo de mais de 40 décadas sendo jornalista.  

De sua origem humilde, de seus primeiros trabalhos pintando publicidade nos muros da cidade, seu autodidatismo para a escrita jornalística. Sua atuação em todos os principais jornais impressos do Piauí, sua consolidação como colunista de política e seu pioneirismo na internet. A história da imprensa piauiense na segunda metade do século XX e início do século XXI perpassa necessariamente pelo nome e atuação de Arimatéia Azevedo. 

Por Daiane Rufino Leal
Professora de Jornalismo. Mestra em Comunicação. Doutoranda em História do Brasil

Primeira vez que eu adentrei ao Portal AZ fiquei a observar as páginas de jornais emolduradas em quadros e penduradas nas paredes da sala da recepção, eram recortes de matérias sobre o período das denúncias feitas por Arimatéia Azevedo contra o crime organizado. Em um dos títulos estava escrito: “A Polícia virou caso de polícia”, texto assinado pelo jornalista, referindo-se ao esquema criminoso envolvendo a polícia militar do Piauí na década de 1990.

Estávamos no ano de 2005, os portais de notícias ainda eram poucos no Piauí, não existiam os smartphones e o acesso à internet era limitado ao computador e com transmissão lenta. O Portal AZ estava consolidado pelo seu pioneirismo e, principalmente, pela credibilidade do nome de seu idealizador, Arimatéia Azevedo. 

Ele sempre contava com entusiasmo os motivos que o levaram a fundar um portal de notícias, já que até o início dos anos 2000, os jornais e revistas impressas ainda eram os veículos mais relevantes. Ele costumava relatar que sofria muita censura no antigo jornal em que trabalhava e que criou um espaço na internet para que pudesse divulgar sua coluna na íntegra.

Para a minha geração, Arimatéia estava sempre associado a um jornalista combativo, que fazia jornalismo investigativo e a pessoa por trás do pioneirismo do webjornalismo no Estado.

A oportunidade de trabalhar com este grupo de jornalistas que construiu no dia a dia o início do jornalismo na internet surgiu quando eu era recém-formada pela Ufpi e vi um anúncio no Portal AZ com oferta para seleção de vagas para repórteres, eu estava ávida por trabalhar numa redação e experimentar o frenesi de cobrir a história do presente. Após análise de currículo, fui entrevistada pelo próprio Arimatéia Azevedo, me lembro bem que uma das perguntas que ele me fez foi se eu tinha relações familiares, de amizade ou profissionais com políticos, pois isto poderia atrapalhar a minha atuação como repórter e ele prezava pela independência e investigação livre de sua redação de jornalistas. Resposta negativa, consegui a vaga, atuei como repórter e anos depois como editora-chefe da redação.

Empresário não! Jornalista!

Naquele período Arimatéia não era exclusivamente um colunista de política, ele era proprietário de uma empresa de comunicação, mas não se interessava muito por questões administrativas e renegava sempre títulos como os de diretor, presidente ou empresário. Dizia sempre: “eu sou um jornalista!”. 

Na rotina do Portal AZ, Arimatéia trabalhava todos os dias, inclusive aos domingos, quando ele ia pela manhã escrever sua coluna de segunda-feira. Apesar de ter sua sala individual, onde recebia muitas fontes diariamente, ele sempre ia à redação (ambiente físico onde trabalham os repórteres) conversar conosco, gostava de saber das pautas, lia os títulos no computador, reclamava se houvessem erros ortográficos, tinha sempre uma energia que beirava a euforia. Se empolgava com furos jornalísticos e com denúncias, mas exigia sempre que anexássemos documentos comprobatórios da investigação e que ouvíssemos a parte acusada, como manda o código de ética dos jornalistas brasileiros. 

Eu lembro claramente de episódios que foram lições para mim, enquanto aprendiz do ofício de repórter. Certa vez chegou à Redação um advogado de prefeito de um município do interior do Piauí solicitando direito de resposta sobre uma matéria que havia sido divulgada no Portal AZ. Recebi o senhor e concordamos que a versão do prefeito para os fatos noticiados deveria sim ser publicado e eu lhe disse que eu entrevistaria o prefeito e faríamos uma nova matéria com os argumentos dele, pois ele não havia atendido as nossas ligações no dia anterior. O advogado sentou-se ao meu lado e disse que já havia trazido os “argumentos” do prefeito por escrito e começou a me falar, quase como ditando as frases. Por inexperiência ou intimidação escrevi quase tudo que o advogado queria, enquanto eu redigia, Arimatéia Azevedo adentrou umas três vezes à Redação, observava a cena e saia sem falar nada.

O advogado foi embora, eu publiquei a nova matéria e então Arimatéia veio conversar comigo, me explicando calmamente para que nunca mais me deixasse intimidar nem redigisse nada que advogado pedisse, a menos que fosse um direito de resposta como nota oficial. Uma lição de ética e autonomia jornalística que ficou comigo, como muitas outras nos dada pelo Ari, como o chamamos.

Um sujeito da história da imprensa piauiense 

Depois que deixei o Portal AZ para trabalhar no jornal Diário do Povo e depois seguir carreira acadêmica como professora e pesquisadora da área da Comunicação passei a me interessar também pela história da imprensa brasileira e piauiense e realizamos algumas entrevistas com o jornalista Arimatéia Azevedo e ele contava com orgulho sempre os caminhos que percorreu ao longo de mais de 40 décadas sendo jornalista.  

De sua origem humilde, de seus primeiros trabalhos pintando publicidade nos muros da cidade, seu autodidatismo para a escrita jornalística. Sua atuação em todos os principais jornais impressos do Piauí, sua consolidação como colunista de política e seu pioneirismo na internet. A história da imprensa piauiense na segunda metade do século XX e início do século XXI perpassa necessariamente pelo nome e atuação de Arimatéia Azevedo. 

Por Daiane Rufino Leal
Professora de Jornalismo. Mestra em Comunicação. Doutoranda em História do Brasil

Arimatéia Azevedo, um amigo querido e especial! Uma coluna para o Ari Azevedo