O vírus da polarização sem leitura

Polarização também cresce quando fatos perdem contexto

Por Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ,

Há um vírus circulando por aí que não mata o ser humano, mas pode maltratar o cérebro. Não precisa de laboratório, vacina ou microscópio. Espalha-se pelas telas dos celulares, atravessa grupos de mensagens, alimenta as redes sociais e encontra terreno fértil onde faltam leitura, contexto e disposição para verificar os fatos.

Foto: Reprodução | DivulgaçãoOk

É o vírus da opinião sem leitura.

Seus sintomas são conhecidos: medo, pânico, indignação instantânea, teorias da conspiração, convicções absolutas e uma extraordinária capacidade de transformar fatos complexos em versões convenientes e descontextualizadas. Porém, esse mesmo vírus não precisa necessariamente inventar uma mentira. Às vezes, basta retirar um fato do contexto, eliminar uma ressalva, cortar uma frase ou transformar uma hipótese em certeza.

O resultado pode ser devastador para o debate público.

Foi justamente esse fenômeno que chamou a atenção após a publicação, na última segunda-feira (05/10), da matéria do Portal AZ, assinada por este jornalista, sob o título “Flávio pode vencer e não chegar ao poder”, sobre as possíveis consequências jurídicas de um eventual governo de Flávio Bolsonaro.

Os comentários publicados depois da reportagem revelaram algo maior do que uma simples divergência política: revelaram como parte do debate público passou a acontecer sem que o texto seja efetivamente lido.

Alguns leitores reagiram à manchete como se ela fosse a reportagem inteira. Vieram acusações de “golpe”, referências à esquerda e manifestações de indignação. Mas uma pergunta simples permanece: quantos daqueles que comentaram haviam lido a matéria até o fim?

É uma pergunta incômoda. E talvez exatamente por isso precise ser feita.

A manchete é lida, a fotografia é observada e, em poucos segundos, o leitor decide se aquilo confirma ou ameaça suas convicções. O conteúdo, com suas fontes, explicações, ressalvas e contexto, muitas vezes fica de fora, mas suas crenças permanecem de pé.

Quando isso acontece, a interpretação deixa de ser resultado da leitura e passa a ser construída a partir de uma impressão superficial.

E a impressão, quando repetida milhares de vezes, pode adquirir aparência de verdade.

Em política, o problema é ainda mais grave, porque uma hipótese pode ser confundida com uma previsão e uma possibilidade jurídica, com uma acusação. Explicar a existência de determinado mecanismo constitucional não significa defender sua aplicação. O papel do jornalismo é informar e contextualizar os fatos, oferecendo ao leitor elementos para que possa formar sua própria opinião.

Foi justamente essa distinção que alguns comentários ignoraram.

O vírus da opinião sem leitura funciona assim: primeiro elimina o contexto; depois oferece uma interpretação; em seguida, transforma essa interpretação em convicção, sem analisar fontes, dados e outros elementos necessários à compreensão dos fatos. Quando alguém questiona, surge a indignação. Quando aparece uma informação contrária, ela é imediatamente classificada como mentira, manipulação ou conspiração.

E assim se constrói uma realidade particular no mundo de Alice dessas pessoas.

O pensador polonês Zygmunt Bauman alertou para uma sociedade marcada pela instantaneidade, pela instabilidade e pela fragilidade das referências. O psicanalista Sigmund Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, estudou como a identificação com ideias e lideranças pode fortalecer os vínculos entre indivíduos. Nenhuma dessas ideias autoriza chamar eleitores de esquerda ou de direita de irracionais. A questão é outra: o que acontece quando pertencer a um grupo se torna mais importante do que verificar uma informação?

O jornalista que passou anos estudando até chegar a um doutorado agora é ensinado sobre como se faz jornalismo. Eu, que tenho seis graduações, mestrado e doutorado, com as disciplinas finalizadas e faltando apenas a defesa da tese, sempre penso que humildade é tudo para um ser humano. Não suporto carteirada, mas quem estuda, pesquisa e investiga antes de escrever também pode se sentir indignado diante de julgamentos feitos sem leitura e sem conhecimento.

Talvez a resposta esteja diante de nós.

O adversário deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser alguém cuja informação deve ser rejeitada antes mesmo de ser examinada. A notícia deixa de ser avaliada pelo conteúdo e passa a ser julgada pela identidade de quem a publicou.

Se veio “do outro lado”, é falsa.

Se confirma aquilo em que acredito, é verdadeira.

Que tipo de debate público pode nascer dessa lógica?

É aí que o jornalismo encontra seu maior desafio — e também sua maior responsabilidade.

Uma fotografia pode registrar um fato, mas não necessariamente comprova a interpretação que alguém pretende atribuir a ela. Uma bandeira americana em uma manifestação brasileira, por exemplo, é um dado jornalístico. Transformá-la, sem outras evidências, na afirmação de que brasileiros estariam abandonando a bandeira nacional em favor da americana seria extrapolar o fato.

Do mesmo modo, ignorar a fotografia porque ela contraria determinada convicção também seria intelectualmente desonesto.

O jornalismo precisa fazer algo menos confortável: olhar para o fato antes de decidir o que ele significa.

Essa diferença entre o que aconteceu e aquilo que alguém concluiu a partir do acontecimento é justamente o espaço em que o jornalismo precisa trabalhar.

Não é necessário concordar com uma reportagem. É legítimo contestá-la, questionar suas fontes, discordar da abordagem e apontar erros. Uma imprensa que não possa ser questionada seria tão problemática quanto uma imprensa que não pudesse questionar o poder.

Mas há uma diferença fundamental entre contestar uma reportagem e rejeitá-la sem lê-la.

A primeira atitude é crítica.

A segunda é preconceito.

Não precisamos saber tudo. Precisamos, porém, reconhecer que assuntos complexos não cabem em frases fáceis. Como compreender uma eleição sem conhecer a história política recente? Como discutir economia sem observar os dados? Como falar de soberania e relações internacionais sem algum conhecimento de geopolítica? Como interpretar uma crise institucional ignorando sua origem e seu contexto?

Não existe atalho intelectual para problemas complexos.

Democracia exige esforço. Ler dá trabalho. Conferir fontes dá trabalho. Comparar versões dá trabalho. Reconhecer um erro dá trabalho. Admitir que alguém de quem discordamos pode estar certo em algum ponto dá ainda mais trabalho.

Mais fácil é escolher um lado, selecionar as informações que confirmam esse lado e transformar qualquer informação contrária em inimiga.

Por isso, antes de acusar, é preciso ler. Antes de concluir, é preciso compreender. E, antes de transformar uma reportagem em uma guerra entre esquerda e direita, talvez seja necessário fazer uma pergunta elementar:

O que, exatamente, o texto disse?

Se a resposta vier da leitura integral da reportagem, existe espaço para o debate.

Se vier apenas da manchete, não estamos discutindo jornalismo.

Estamos discutindo uma impressão.

E impressão, por mais convicta que seja, não é fato.

Fonte: Portal AZ

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