Brasil precisa olhar além das fronteiras

BRICS, tarifas dos EUA e tecnologia colocam soberania em debate

Por Márcio Felipe | Jornalista | Portal AZ,

A soberania brasileira entrou em uma nova etapa. Já não basta proteger fronteiras terrestres, marítimas e aéreas. O país precisa proteger também sua economia, seus sistemas financeiros, seus dados, suas infraestruturas críticas e sua capacidade tecnológica. É nesse cenário que o avanço do BRICS e o aumento das tensões comerciais com os Estados Unidos merecem atenção.

Foto: Magnific | www.slon.picsBrasil

O BRICS vem discutindo mecanismos para ampliar os pagamentos internacionais em moedas locais e aumentar a interoperabilidade entre os sistemas financeiros dos países integrantes. Na Declaração do Rio, aprovada em julho de 2025, os líderes determinaram a continuidade das discussões sobre a BRICS Cross-Border Payments Initiative, destinada a facilitar pagamentos internacionais mais rápidos, baratos, acessíveis, eficientes e seguros.

Há uma questão estratégica nessa movimentação: diminuir a dependência de mecanismos financeiros concentrados nas estruturas tradicionais do sistema internacional.

É importante, porém, não exagerar o que está acontecendo. O BRICS ainda não criou um sistema financeiro capaz de substituir o SWIFT, tampouco estabeleceu uma moeda única para o bloco. O que existe é um processo de construção de alternativas e de ampliação do uso de moedas nacionais nas transações entre seus integrantes.

E o Brasil possui um ativo tecnológico que não pode ser ignorado: o Pix.

Em 2025, o sistema registrou quase 80 bilhões de transações e movimentou mais de R$ 35 trilhões, segundo o Banco Central. Ao final daquele ano, 148 milhões de pessoas físicas e 12,8 milhões de empresas haviam utilizado o sistema.

O Pix não é um substituto do SWIFT. São sistemas com finalidades diferentes. Mas sua escala demonstra que o Brasil possui capacidade para desenvolver infraestrutura financeira digital própria. Essa experiência pode contribuir para discussões internacionais sobre pagamentos instantâneos e interoperabilidade.

A Índia possui outra infraestrutura de grande escala, o UPI. Em agosto de 2026, o sistema processou 24,5 bilhões de transações, segundo dados divulgados pela Reuters.

É nesse cruzamento entre tecnologia e geopolítica que o assunto ganha importância.

Enquanto o BRICS procura ampliar alternativas financeiras, o comércio brasileiro com os Estados Unidos enfrenta novas barreiras. Em julho de 2026, Washington adotou sobretaxas adicionais de 25% sobre determinados produtos brasileiros e de 12,5% em outra medida baseada na Seção 301. Segundo o MDIC, as duas medidas alcançam, combinadas, 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Em 16,5% desse comércio, as sobretaxas podem chegar a 37,5%.

O impacto já aparece no comércio exterior.

As exportações brasileiras para os Estados Unidos chegaram a US$ 40,4 bilhões em 2024, caíram para US$ 37,7 bilhões em 2025 e somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. A participação norte-americana nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% na comparação dos primeiros semestres de 2025 e 2026.

Esses números não autorizam concluir que exista um plano norte-americano de intervenção militar no Brasil. Seria irresponsável transformar uma hipótese geopolítica em fato.

Mas também seria um erro ignorar que relações internacionais são relações de poder.

Tarifas, sanções, tecnologia, acesso a mercados, energia, minerais estratégicos e sistemas financeiros fazem parte da disputa internacional contemporânea. A pressão econômica pode produzir efeitos concretos sobre empresas, trabalhadores, investimentos e decisões de governo.

O Brasil precisa estar preparado para esse ambiente.

Não considero razoável esperar uma ameaça militar concreta para somente então pensar em defesa nacional. O planejamento estratégico deve acontecer antes da crise.

Nesse ponto, o próprio Estado brasileiro já reconheceu a necessidade de ampliar suas capacidades tecnológicas.

O Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025, aprovou a nova Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional. O documento estabelece entre as prioridades o desenvolvimento de tecnologias críticas, a tecnologia cibernética, o setor espacial e a inteligência artificial aplicada à Defesa.

É exatamente aí que está uma das maiores vulnerabilidades brasileiras.

O país não pode depender permanentemente de tecnologia estrangeira para proteger suas comunicações, seus satélites, seus sistemas financeiros, suas redes digitais e suas infraestruturas estratégicas.

A guerra do futuro não será necessariamente anunciada por tanques atravessando uma fronteira.

Ela poderá começar com um ataque cibernético, uma interrupção de comunicações, uma sabotagem digital, uma ruptura de cadeia de suprimentos ou uma pressão econômica capaz de atingir setores estratégicos.

A própria Estratégia Nacional de Defesa reconhece que ataques cibernéticos podem comprometer serviços essenciais e infraestruturas críticas, incluindo cabos submarinos e sistemas satelitais. O documento também estabelece como objetivo reduzir gradualmente a dependência de tecnologias estrangeiras e estimular o desenvolvimento nacional em inteligência artificial, cibernética e tecnologia espacial.

Por isso, a ideia de ampliar a estrutura brasileira de defesa para lidar especificamente com drones, inteligência artificial e guerra cibernética merece debate nacional.

Não necessariamente pela criação imediata de uma chamada "quarta força", mas pela necessidade de criar capacidade permanente de defesa tecnológica.

O Brasil precisa ter domínio sobre drones de longo alcance, sistemas autônomos, satélites, inteligência artificial, criptografia, defesa cibernética, guerra eletrônica e proteção de infraestrutura crítica.

Isso não é militarismo.

É soberania.

Também não significa romper com os Estados Unidos. O comércio bilateral continua relevante e os dois países seguem negociando. Em 31 de agosto de 2026, representantes dos governos brasileiro e norte-americano retomaram formalmente o diálogo comercial sobre as novas tarifas.

Diplomacia e defesa não são caminhos opostos.

Um país soberano negocia melhor quando possui alternativas.

O Brasil deve ampliar suas relações com China, Índia, Rússia, África do Sul e os demais parceiros do BRICS, mas não pode substituir uma dependência por outra. A verdadeira autonomia está na diversificação de mercados, tecnologias, fontes de financiamento e parceiros estratégicos.

O desafio brasileiro é construir capacidade própria.

Precisamos produzir tecnologia, formar pesquisadores, fortalecer universidades, financiar inovação, desenvolver empresas nacionais e transformar conhecimento científico em capacidade econômica e estratégica.

O BRICS oferece uma oportunidade para ampliar o espaço de negociação do Brasil. As tensões comerciais com os Estados Unidos servem como alerta. E a transformação tecnológica impõe uma obrigação: preparar o Estado brasileiro para uma realidade na qual poder econômico, poder financeiro, informação e poder militar estarão cada vez mais conectados.

Minha posição é direta: o Brasil não deve esperar que uma crise de soberania aconteça para começar a construir soberania.

Não precisamos acreditar em teorias de invasão para reconhecer os riscos da dependência.

Também não precisamos escolher entre Washington e o BRICS.

Precisamos escolher o Brasil.

E escolher o Brasil significa ter capacidade econômica, tecnológica, diplomática e militar para dizer não quando necessário — e, principalmente, ter alternativas quando esse "não" tiver um preço.

Fonte: Portal AZ

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