Flávio amplia vantagem sobre Lula e entra no 2º turno com cenário favorável

Primeira rodada do tracking Ipespe/Abrapel mostra o senador cinco pontos à frente

Por José Ribas Neto,

O senador Flávio Bolsonaro chega à reta final da disputa presidencial com vantagem sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva maior do que a obtida nas urnas no primeiro turno. É o que mostra a primeira rodada do tracking semanal do Ipespe em parceria com a Abrapel (Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais), realizada entre 6 e 8 de outubro, com 1.500 entrevistas por telefone em todo o país.

Foto: Reprodução | DivulgaçãoOk

Na pesquisa estimulada, Flávio tem 49% das intenções de voto, e Lula, 44%. Outros 5% dizem que vão votar em branco ou anular, e 3% não sabem ou não responderam. Considerados apenas os votos válidos, critério usado pela Justiça Eleitoral para definir o vencedor, o placar é de 52,7% a 47,3%. A margem de erro é de 2,6 pontos percentuais, para mais ou para menos.

O resultado indica que a diferença entre os dois cresceu desde 4 de outubro. No primeiro turno, Flávio terminou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma distância de 1,87 ponto. Agora, ela chega a 5,4 pontos. Na pergunta espontânea, quando nenhum nome é apresentado ao entrevistado, o quadro é semelhante, com 48% para o senador e 43% para o presidente.

A vantagem se mantém quando o recorte considera apenas os eleitores mais dispostos a votar. Do total de entrevistados, 88% dizem ter chance máxima de comparecer às urnas no dia 25. Nesse grupo, Flávio fica com cerca de 53% dos votos válidos. O próprio instituto ressalva que o recorte não é uma projeção de abstenção, mas um indicativo de como se comporta o eleitor mais engajado.

Rejeição equilibrada e votos consolidados

Apesar da dianteira, os números de rejeição mostram uma disputa apertada. Para 46% dos eleitores, Flávio não receberia o voto de jeito nenhum. No caso de Lula, esse índice é de 49%. A certeza de voto é de 47% para o senador e de 43% para o presidente, e ambos têm 5% de eleitores que admitem a possibilidade de votar neles.

Os dois campos também parecem cristalizados. Entre os que dizem ter votado em Flávio no primeiro turno, 97% pretendem repetir a escolha. O índice é idêntico entre os eleitores de Lula. Isso reduz o espaço de crescimento a parcelas pequenas do eleitorado, como os que votaram em candidatos derrotados, os indecisos e os que se abstiveram.

Nesse terreno, o senador leva vantagem inicial. Entre os eleitores de Ronaldo Caiado, 56% declaram voto em Flávio e 15% em Lula. Entre os de Augusto Cury, a divisão é de 50% a 29%. Os eleitores de Renan Santos se mostram mais reticentes, com 36% para Flávio, 20% para Lula e 32% inclinados ao voto branco ou nulo. O Ipespe alerta, porém, que esses grupos são pequenos na amostra e exigem cautela na leitura.

Independentes decidem

A composição ideológica do eleitorado ajuda a explicar o cenário. Somados, os que se declaram de direita representam 33% dos entrevistados, sendo 23% de direita não bolsonarista e 10% bolsonaristas. Os identificados com a esquerda somam 25%, com 12% de lulistas e 13% de esquerda não lulista.

O maior grupo, no entanto, é o dos independentes, que respondem por 37% do eleitorado. É nele que a disputa está mais aberta, com empate exato de 44% para cada candidato. A conquista desse eleitor, que não se identifica com nenhum dos polos, tende a ser o principal objetivo das duas campanhas nas próximas duas semanas.

Um país dividido por região, renda e religião

A leitura por segmentos revela um mapa já conhecido da polarização brasileira. Lula mantém ampla vantagem no Nordeste, onde tem 63% contra 29% do adversário. Flávio domina o Sul (63% a 30%), o Norte e o Centro-Oeste (59% a 33%) e também lidera no Sudeste, maior colégio eleitoral do país, por 52% a 40%.

O presidente vence entre as mulheres (49% a 44%), entre os eleitores com ensino fundamental (51% a 41%) e entre as famílias com renda de até dois salários mínimos (51% a 40%). O senador lidera entre os homens (53% a 38%), entre quem tem ensino médio (53% a 39%) e na faixa de renda de dois a cinco salários mínimos, onde abre 18 pontos (55% a 37%).

A religião é outro divisor relevante. Entre os evangélicos, Flávio tem o dobro das intenções de voto de Lula, 61% a 30%. Entre os católicos, há equilíbrio, com 48% para o senador e 46% para o presidente. Já entre os que seguem outras religiões ou não têm religião, Lula lidera com 55% a 35%.

Desejo de mudança pesa contra o governo

O ambiente da eleição é marcado pela demanda por mudança. Para 79% dos entrevistados, o próximo presidente deve alterar total ou parcialmente o rumo do país. Desse total, 37% querem mudança completa e 42% defendem mudar apenas o que não está bom. Só 18% desejam a continuidade do trabalho atual.

O dado favorece o discurso oposicionista. Entre os que pedem mudança total, 81% votam em Flávio. Quando questionados sobre qual candidato tem mais condições de fazer as mudanças de que o país precisa, 50% apontam o senador e 42%, o presidente.

Há, contudo, uma brecha para Lula. No grupo que deseja mudar apenas o que não está bom, o maior entre os entrevistados, o petista lidera por 49% a 42%. É um eleitor que reconhece problemas, mas não necessariamente rejeita o governo, e pode ser decisivo na reta final.

Economia mal avaliada, mas com otimismo

A percepção econômica também pesa contra o Planalto. Para 53% dos brasileiros, a situação da economia do país é ruim ou péssima. Apenas 18% a consideram ótima ou boa, e 28% a classificam como regular. Entre os eleitores de Flávio, a avaliação negativa chega a 87%.

O quadro muda quando o entrevistado fala da própria vida. Na avaliação da situação financeira pessoal e da família, 40% dizem que ela é ótima ou boa, 45% a consideram regular e só 13% a veem como ruim ou péssima. A distância entre a percepção do país e a da própria casa é um dos pontos que a campanha petista pode explorar.

O otimismo também é alto. Para 68% dos entrevistados, a economia vai melhorar no próximo ano, expectativa mais forte entre os eleitores de Flávio (79%) do que entre os de Lula (60%).

O governo Lula é desaprovado por 50% e aprovado por 43%. Os números são quase idênticos aos da avaliação retrospectiva do governo de Jair Bolsonaro, pai do senador, desaprovado por 50% e aprovado por 44%. Ou seja, nenhum dos dois campos parte de uma herança amplamente bem avaliada.

Agendas distintas

A pesquisa também perguntou quais temas pesaram mais na escolha do voto no primeiro turno. Isoladamente, o mais citado foi corrupção e crise no STF, com 24% das menções. Quando somados os itens de conteúdo econômico, como emprego e preços, fim da escala 6x1, fim das bets e aumento do Bolsa Família, o conjunto chega a 30% e passa à frente.

As prioridades, porém, variam conforme o candidato. Entre os eleitores de Flávio, 41% citam corrupção e a crise no Supremo como fator decisivo, contra apenas 5% entre os de Lula. Os eleitores do petista se dividem entre economia, saúde e educação (19%), soberania nacional e atitudes do presidente americano Donald Trump (13%) e o fim da escala 6x1 (11%).

Temas que ocuparam espaço no debate público tiveram peso reduzido na decisão. A anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, o debate sobre religião e o cancelamento do debate da TV Globo foram citados, cada um, por apenas 2% dos entrevistados.

Esperança de um lado, medo do outro

Os sentimentos em relação à eleição também diferem entre os campos. A esperança é o mais mencionado, por 45% dos entrevistados, seguida pelo medo, com 14%. Entre os eleitores de Flávio, 61% falam em esperança. Entre os de Lula, a proporção cai para 33%, e o medo aparece em 23% das respostas, quase quatro vezes mais que entre os apoiadores do senador.

O dado contraria a tese de um eleitorado apático. Apenas 7% citam desânimo ou cansaço como principal sentimento, e 82% dizem ter muito ou algum interesse no segundo turno.

Comunicação é o calcanhar de Aquiles do PT

O ponto mais delicado para o governo está na avaliação das campanhas. Flávio é apontado como o candidato que tem se saído melhor em todos os meios pesquisados. Nas redes sociais, a vantagem é de 15 pontos (47% a 32%). Nas conversas de WhatsApp, de 14 pontos (44% a 30%). Na TV e no rádio, de 9 pontos (43% a 34%), e nas entrevistas televisivas, de 8 pontos (45% a 37%).

A coleta, no entanto, terminou antes do início da propaganda eleitoral gratuita do segundo turno, nesta sexta-feira (9). Na avaliação do próprio instituto, as chances de Lula dependerão em grande medida da recuperação de sua comunicação, num período curto e intenso de propaganda, entrevistas, mobilização de rua e debates.

A próxima rodada do tracking deve indicar se o horário eleitoral será capaz de alterar uma tendência que, por ora, favorece o senador, mas ainda dentro de uma margem que mantém a eleição em aberto.

Fonte: Portal AZ

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